Nossos vizinhos e hermanos tem uma história rica e complexa que, claro, influencia também na música feita no país. Eles compartilham conosco, principalmente, na fronteira gaúcha, sua cultura musical. Além, é claro, o que (muito pouco) chega por aqui via indústria fonográfica e pelas mídias.
O tango e a música gaúcha são os ritmos que mais nos recordam a Argentina. Por supuesto que não para por aí. Dos ritmos mais tradicionais, como a milonga, a chacarera e a zamba, ao chamamé, à cumbia, ao rock e à música urbana atual, o cancionero argentino nos surpreende por sua diversidade, paixão e criatividade musical.
Nomes como Carlos Gardel, Astor Piazzolla, León Gieco, Mercedes Sosa, Charly García, Fito Páez, Gustavo Cerati, Maria Becerra, Cazzu, Nathi Peluso, Soda Stereo, Babasônicos e Los Fabulosos Cadilacc são alguns dos talentos conhecidos e reconhecidos da Argentina. Premiados internacionalmente, muitos deles estão em listas dos melhores no Grammy Latino, em revistas especializadas em música, como a Rolling Stone, e na Billboard, por exemplo.
A música argentina que conhecemos hoje é fruto de um processo histórico de hibridismos culturais, como em toda a América Latina. As músicas criolla (ou dos descendentes de espanhóis nascidos na América), a indígena e a negra formam a base da cultura do país.
No século XIX, na busca de construir uma identidade nacional, os pesquisadores de cultura musical fizeram uma adaptação, por assim dizer, da música popular argentina.
Duas tradições se destacaram nesse processo: (1) a música da cidade de Buenos Aires, resultado da influência do flamengo espanhol e da habanera cubana, é o tango e suas variações; (2) do mundo rural, principalmente do sul do país, a música dos pampas ou gaúcha. A busca por europeirizar a Argentina, numa política do governo da época, quase que apagou os traços da cultura de origem africana, o que tem merecido vários estudos e críticas até hoje.
As duas vertentes, tango e música gaúcha, inspiraram compositores eruditos, como Alberto Williams, que compôs canções como Milonga para tí, Canción del cabrero e El rancho abandonado.
E o tango foi o ritmo escolhido para dar uma identidade nacional para o grande número dos imigrantes que foram para o país, no começo do século XX.
Com a indústria fonográfica e a presença do rádio, a partir da década de 1910, cantores como Carlos Gardel, Rosita Quiroga, Agustín Magaldi e Ignacio Corsini se destacaram, gravando ritmos diferentes. Mas, com a ascensão do tango como símbolo nacional, se tornaram mais conhecidos por esse estilo musical. Vale lembrar que Gardel também atuou e cantou em vários filmes, que foram exibidos fora da Argentina, ajudando a divulgar a cultura do país.
Na fronteira com o Uruguai, o Brasil e o Paraguai, surgiu o ritmo chamamé, uma fusão das músicas espanhola e guarani. A canção mais conhecida é Mercedita, que recebeu diversas interpretações no Brasil, entre elas, a de Gal Costa.
Nas décadas de 1940 e 1950, a música argentina foi influenciada pelo jazz que se fundiu aos outros ritmos tradicionais do país. A presença de orquestras e grupos musicais é uma das marcas do estilo. Astor Piazzolla juntou o jazz e o tango e inaugurou o movimento chamado Novo Tango, reaproximando o ritmo tradicional da identidade musical do país, perdida nos anos anteriores.
O movimento da Nueva Canción, que se instaurou em vários países da América Latina, na década de 1960, levou os argentinos a revisitar os ritmos tradicionais populares. E trazer também o protesto político em suas letras, de forma mais evidente, no período da ditadura militar. Artistas como Facundo Cabral, Jorge Cafrune, Mercedes Sosa, Piero, Víctor Heredia, Cesar Isella são os nomes mais representativos do movimento na Argentina.
Também na década de 1960, com a influência do rock, abriu-se um campo fértil, surgindo muitos e talentosos artistas, tanto cantando solo como em grupos. Além da hibridização com os ritmos locais. O grupo Los Gatos, liderado por Nito Nebbia, e seu sucesso La Balsa, é um dos marcos do início da história do ritmo na Argentina.
Na década de 1970, Charly García se tornou um dos grandes representantes do rock argentino, com hits como Canción para mi muerte. O sucesso do rock continuou nos anos de 1980, quando também se destacou o punk da banda Violadores. Nessa época, surge Los Fabulosos Cadillacs. Podemos ainda falar de Fito Páez, Moris e das bandas Autênticos Decadentes, Soda Stereo, Babasônicos e Manal, entre muitos outros.
Muitas das músicas do rock argentino chegaram ao Brasil pelas partilhas com cantores e bandas brasileiros. Entre eles, destaque para Paralamas do Sucesso. Alguns hits do grupo são versões de rocks argentinos. Trac Trac é versão de uma composição de Fito Páez, com o mesmo nome. Lourinha Bombril, por sua vez, é a versão de Parate y mira, da Banda Los Pericos. Somam-se ainda as canções Que me pisen, da Banda Sumo, Hablando a tu corazón, de Charly García, e Quando Pase el temblor, de Soda Stereo.
Aliás, o rock é considerado um dos ritmos mais marcantes da vida cultural argentina, embora não seja nativo de lá. Outros roqueiros de países vizinhos, como Chile, foram intensamente influenciados pelos argentinos. Não só de tango vivem los hermanos...
Nos anos de 1990, a cúmbia, ritmo tropical, ganhou espaço no cenário musical argentino, com cantores como Gilda e Ricky Maravilla. Nessa década, também foi formada a banda Actitud María Marta, com a mistura de rap, rock, reggae e ritmos latinos. Na cena do rap, temos ainda a banda La Organización, com o rapper Mustafá Yoda.
No século XXI, vamos continuar ouvindo as músicas tradicionais argentinas, seus vários estilos de rock e as novas fusões que vão dar origem ao que a indústria fonográfica chama de música urbana, com o reggaeton e o trap. A cantora Maria Becerra é a grande aposta da indústria musical argentina e tem participado de várias premiações internacionais. Nessa linha, temos ainda Nathi Peluso, Nicky Nicole, Bizzarap e Duki.
Em outros campos, vamos encontrar Julieta Sabanes, que mistura os ritmos tradicionais do país com música erudita; o bom humor da banda formada só por mulheres, Las Taradas; e o pós-punk de Viva Elastico.
Da milonga ao tango, do rock à música urbana, a música argentina, nascida do encontro (muitas vezes) conflituoso de culturas, vai se renovando, sem perder seu olhar no passado. Tão perto de nós e, muitas vezes, longe de nossos ouvidos.
Postado em: janeiro de 2024
Texto: Suzana Coutinho